Aquela criança que o ama crescerá e desaparecerá…

É o mês da criança, sete meses de Pétala, e longos dias de dedicação para tornar-me mãe. Não uma mãe genérica e abstrata com instintos inatos, mas a mãe da criança Pétala.

Juntas terminamos um doutorado, e juntas estamos começando  a criar e descobrir um mundo novo. Desde o nascimento da Pétala, fiz a escolha (junto ao Marco) de dedicar o meu dia em criar um mundo com ela, veja bem, não é  criar ela, afinal ela é  uma criatura por si só. O que fazemos é criar uma vida em comunhão. Ao longo destes meses não abdiquei de nada, apenas pausei alguns projetos,e principalmente, o ritmo da vida. E isso me fez e faz tão bem, isso nos faz tão bem. E hoje me dei conta da grandiosidade disso tudo e é sobre isso que gostaria de refletir.

Uma das nossas experiências compartilhadas intensamente  é a vivência  em Montessori. Em um outro momento posso explicar melhor o que isso significa, mas desde já adianto, é muito mais que uma caminha no chão!

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Mas o tópico não é quarto, e sim criança. Hoje, especialmente, quero trazer uma reflexão de Montessori, essa médica e pedagoga, que me emocionou, me proporcionou a percepção de uma realidade que chega a doer no peito.

Desde o início da gestação leio Montessori e sobre a pedagogia e filosofia montessoriana, mas com a chegada da Pétala tudo se tornou mais real. E, atualmente, estou relendo o livro  “A Criança”. E o que me tocou foi o capítulo 17,  “o intelecto de amor” , que seria o dom do amor, inato em todas as crianças. Montessori diz, que pensamos que amamos as crianças, mas quem ama de verdade e puramente são as crianças a nós:

“…Quem ama de verdade é a criança, que deseja sentir o adulto a seu lado e que sente prazer em atrair a atenção dele sobre si: veja-me estamos juntos .

À noite, quando vai deitar-se, chama a pessoa a quem ama e gostaria que esta não a deixasse. E quando vamos comer, o lactante quer ir conosco, não tanto para comer também, mas para olhar-nos, para estar perto de nós” (p.117)

 E não é verdade? As vezes nem podemos ir ao banheiro, que a criança quer estar junto, vamos lavar uma louça e temos que virar a cadeira ou carrinho para a criança nos ver, vamos só ali pegar uma água e já tem berreiro porque ficou sozinho no quarto.

-Sério, que a Pétala não te deixa nem tomar água?

-Sério!

Ela gosta de estar comigo, e  maioria das vezes eu gosto muito de estar com ela, mas as vezes deixo ela com o móbile ou com o espelho, se distraindo , se conhecendo. E acho que esse é ponto, tenho pra mim que a  criança tem que aprender a gostar de estar sozinha, mas também acredito que  tudo tem um tempo certo. Não precisamos oferecer um milhão  de distrações para a criança se acostumar com a nossa ausência (celular, tablet, televisão, boneca que fala…), o tempo fará isso por nós.

Eu já tinha isso muito claro, mas em uma leitura, tive um puta de um insight que me deixou um pouco chocada, olha o que diz Montessori:

“O adulto passa junto desse amor místico sem o reconhecer – mas trate de cuidar-se: aquela criança que o ama crescerá e desaparecerá.

Quem o amará como ela?

Quem chamará, à hora de ir para a cama dizendo: “fique comigo”? – em vez de dizer com indiferença “boa noite’?

Quem desejará, além disso,  estar junto de nós a mesa, apenas para olhar-nos?

Nós nos defendemos contra esse amor – e nunca tornaremos a encontrar outro igual- e replicamos impacientes: “Não tenho tempo, não posso, tenho mais o que fazer”, quando, no fundo, pensamos: “É preciso corrigir as crianças, do contrário, elas nos escravizam”. Queremos nos libertar dela para fazermos aquilo que nos agrada, para não renunciarmos à nossa comodidade.” (p.117)

Sei o quanto uma criança exige, e sei o quanto temos que nos esforçar para retribuir esse amor que ela nos oferece e acho que esse é o grande lance. Maternagem é doação, nós, infelizmente, não nascemos com esse amor puro pronto (mesmo depois do parto), aprendemos a nos tornar mães e pais, aprendemos a amar aquele novo ser. E acho que o mais lindo de toda essa aprendizagem é que aprendemos também a ser um novo indivíduo. Cito a sensibilidade de Montessori:

“Sim, viver melhor: sentir o sopro do amor.

Sem a criança, que o ajuda a renovar-se, o homem degeneraria. Se o adulto não procura renovar-se forma-se paulatinamente em torno do seu espírito uma couraça que acaba por torná-lo insensível- e, desse modo, insensato seu coração se perderá!”

Amo esse tom dramático de Montessori, sobretudo, porque nos mostra que estas questões são urgentes. Adotar um filho, uma criança é isso, nos abrimos para o novo, nos permitimos a ser e fazer diferente.É ter compaixão por essa pequena vida, como ela também tem conosco. Não posso negar, é um imenso exercício e sacrifício, mas vale a pena, porque tudo isso passará, a criança passará, como disse Montessori, “ela crescerá e desaparecerá”. Talvez o que fique seja apenas o amor, a lição que ela nos deixou, de nos proporcionarmos também a experiência de adquirir o “intelecto do amor”.

Me despeço com uma imagem que muito nos define,  foi no final de uma semana conturbada de um concurso público, estávamos dias fora de casa. Eu cansada, gripada, e quando chego no hotel: tenho essa carinha de amor, serena, e cheia de compaixão para me receber, entendendo que tudo o que eu queria era um aconchego e paz. Temos o retrato das duas com a carinha da derrota, mas em sintonia. Como não retribuir a esse chamado de criança?

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Aliás, uma Pétala me chama, é hora do mama!

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2 comentários Adicione o seu

  1. Ana Carolina C Basilio Schirmer disse:

    Olha!!!! É mesmo a mais pura verdade!!! Que delicia!

  2. É dramático, mas é verdadeiro. Se o drama tem uma função é a de emocionar a ponto de promover uma ação, uma mudança. Estou no mesmo caminho e na mesma velocidade, consigo entender perfeitamente sua expressão. Realmente espero que outros que não estão neste caminho ainda se permitam amar a este ponto e ” romper esta couraça” antes que ela torne-se tão sólida a ponto de ser uma bolha de insensibilidade.

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